Um dos meus maiores defeitos - não, não é defeito, é um traço de personalidade que me deu dores de cabeça - é conseguir ver as coisas de muitos ângulos, adaptar-me facilmente a diferentes pontos de vista. De modo que a minha vida era mais ou menos papaguear opiniões alheias, e tremer constantemente com a possibilidade de alguém a querer discutir comigo. Eu sentia-me sempre tão frágil com a hipótese de alguém se virar para mim, rir-se e dizer "rapariga tonta, não sabes nada disto" ou qualquer coisinha dessas. E eu não tinha força para defender o que dizia porque o que eu dizia não era meu, mas discursos repetidos ou porque me tinham soado lógicos ou atraentes, ou porque as pessoas que os tinham dito estavam nalgum tipo de pedestal, ou simplesmente porque era a única coisa que tinha ouvido sobre o assunto e as opiniões verdadeiramente minhas sempre me pareceram demasiado íntimas para as expor. O resultado foi que, para além de não conseguir ter uma conversa decente sobre qualquer coisa importante com ninguém, me tornei na pessoa mais incoerente, mais confusa e contraditória do mundo.
Quando comecei a ler blogs dei de caras com centenas de opiniões diferentes. Um dizia isto e outro aquilo, muitas vezes no mesmo português correcto que, inconscientemente, era o único requisito para aceitar a ideia. Só que o autor já não era nem a televisão, nem um livro, nem uma entidade "superior". Não havia pedestais. Algures, eu tive que pôr os pés à parede e começar a detectar as falácias (pronto, as aulas de filosofia pelo menos tiveram o mérito de me encher o vocabulário com palavras finas). Ou seja, aprendi o que é que "pensar pela minha própria cabeça" até significava mais do que não aceitar droga dos amigos.
Quando comecei a escrever o meu blog, foi mais ou menos porque eu queria mostrar o que pensava a alguém. O anonimato parecia ser escudo suficiente para essa sensação de que as minhas opiniões eram demasiado íntimas, para o medo que também ao dizê-las desdenhassem da forma que só os adultos "adultos" sabem fazer aos jovens. E mesmo no anonimato, tinha sempre um quê de medo de abrir a caixa de comentários. À medida que fui conhecendo pessoas que sabiam discordar de mim sem usar aquele tom, o medo foi desaparecendo. Esta cabecinha entendeu que quem quer que entrasse por aqui adentro a chamar-me todos os nomes de que se lembrasse porque não pensava o mesmo que eu não era pessoa cuja desaprovação me devesse deixar melindrada. Parece que houve umas quantas entidades "superiores" que assim a modos que desceram abruptamente à terra.
E é isto. Eu até posso ser amalucada, lunática, cheia de manias que não lembram ao diabo, possivelmente com um distúrbio de múltipla personalidade, incapaz de levar qualquer projecto até ao fim, convencida e com uma auto-estima miserável ao mesmo tempo, mas pelo menos sou sensata. Espero.